É isso mesmo que você leu no título. Eu, você e a maioria das pessoas que nos rodeia vivemos presos em uma caverna. E para explicar, preciso que você acione a imaginação e venha comigo.

Estamos presos em uma caverna escura e fria. Vivemos lá desde que nascemos. Correntes prendem nossos braços, pernas e pescoços. Conseguimos ver apenas a parede de fundo. E lá passam sombras de pessoas, objetos e plantas.

Essas formas são produzidas porque há uma fogueira atrás de nós e alguém brinca com objetos. Sabe quando juntamos às mãos na tentativa de criar o formato de uma pomba nas sombras?! Mas não conhecemos o motivo disso, somente as silhuetas no muro.

Até que uma pessoa do nosso grupo é libertada, vira-se para a abertura da caverna, caminha até lá e a claridade é forte demais para os olhos. Ai. Ela pensa em desistir. Os olhos vão se acostumando aos poucos e ta-naaamm. Esse ser sai da caverna, enxerga as cores e fica maravilhado com o mundo.

Qual a primeira coisa que essa pessoa vai fazer?

Voltar para contar aos que ficaram presos como é tudo fora da caverna.

Povo fofoqueiro, né. Ela ficou falando por horas, quase que sem respirar. E falou tanto, tanto, tanto… A galera ficou agoniada, recalcada. O clima ficou feio na comunidade. De incômodo, passamos a ter raiva do tal desbravador.

Matamos.

Quem vai querer essa má influência no grupo? E assim reproduzimos a espécie e repetimos essa cena diariamente. Sem FIM.

Essa história é uma metáfora criada pelo barbudo Platão por volta de 380 a.C, acredita? É conhecida como Mito da Caverna e faz parte do livro A República, uma das obras mais importantes da humanidade. Depois de tanto tempo, amigo, mais atual impossível. E o que você tem a ver com isso?

Platão criou essa narrativa maluca para falar algumas verdades dolorosas na nossa cara. Daquelas espinhosas.

O grupo de pessoas representa a gente. As correntes são nossa ignorância. As sombras são o que nós imaginamos ser a realidade, sair da caverna é o mundo real com senso crítico. Pense bem: estamos presos nas nossa bolhas sociais e grupinhos secretos ou limitados por nosso contexto social e cultural.

Aquele coleguinha que ousa remar contra a maré, que tenta se esclarecer, que questiona o que está estabelecido recebe uma luz intensa nos olhos. E dói. O conhecimento machuca. Dá vontade de desistir e continuar no conforto da ignorância — ainda mais se há um grupo te esperando. A sensação de pertencimento vibra.

Mas se ele resolve seguir em frente rumo ao mundo real, senso crítico, novidades e quebras de paradigmas, aceitação da diversidade… Ahh… Certamente será punido pelo grupo ao voltar. Quantas vezes vimos isso acontecer debaixo de nossas fuças? Simone de Beauvoir, Irmã Dorothy Stang, Jesus Cristo, Nelson Mandela, Martin Luther King e até aquele colega de trabalho que resolveu empreender ou fazer um trabalho diferente. Mais simples: as pessoas com opinião diferente da sua timeline, as minorias sociais.

E a lapada na cara nem acabou…

Muita gente desiste de concretizar ideias, procrastina colocar um projeto no ar, tem preguiça de fazer um novo curso (ou até se matricula, mas nem aparece), deixa de falar o que pensa e não procura saber a verdade antes de espalhar informação. Exatamente como a história de Platão: quando a gente se aproxima do mundo real, sempre há uma luz para ferir a visão. Dá preguiça.

É fundamental ter coragem e persistência para enxergar as diversas cores do mundo. Os que conseguem são poucos. E raros são os que voltam para compartilhar.

Passou da hora de nos libertamos da caverna. E, se ainda estamos desatando os nós que nos aprisionam, vamos ao menos respeitar e aprender com quem voltou para contar como é o mundo, aquele que a gente não conhece. O que é novo assusta, mas pode ser aquela luz que a gente precisa para evoluir. E o recado também serve para mim, claro.


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