Uma vez me disseram que eu estava em um relacionamento abusivo. A maneira como me relacionava com minha profissão era como o marido que bate na mulher mas ela não tem coragem de denunciar. Eu era essa mulher.

Fui repórter de um grande jornal de Brasília. Eu realmente amava estar ali. Apesar dos plantões, de perder datas importantes com a família e contar as moedas para a cerveja… Ainda restava o gozo das matérias emplacadas e o status.

É. O status. Havia tesão em dizer “sou jornalista”, sem contar os deleites das viagens e festas gratuitas. Ninguém precisava saber que as prestações do carro estavam atrasadas.

Ser jornalista virou parte da minha identidade.

Era comer ovo e arrotar caviar, sabe. A vaidade me mantinha na ilusão de que salvava o mundo, era útil e construía algo.

Até que fui salva pelo karma.

Eu precisava aprender inglês e ter novas experiências. Pedi demissão para fazer um intercâmbio e ter novas experiências.

“Como assim sair do emprego? Do jornal que paga melhor na região?”, a família esbravejou. “Você nunca vai conseguir fazer Jornalismo fora do jornal”, o chefe profetizava. “Sair? Tem uma fila de gente que quer sua vaga”, nunca nem vi.

Eu me casei com o Jornalismo em 2011, papel passado e canudo. Tivemos momentos de luxúria e prazer nas publicações. Mas claramente eu tomava uns tapas dele.

Era hora de espairecer. Pedi um tempo nesse relacionamento.

Fui, voltei e recebi ofertas vergonhosas como freelancer. Ele me fazia propostas baratas — literalmente. Flertava descaradamente com ameaças: “se não aceitar esse valor, como vai pagar as contas?”. Sempre foi convincente.

Acredite: voltei mais forte. O anunciante pagava-lhe milhões, e ele me passava R$ 2 mil para escrever três cadernos em duas semanas. Dolorosamente, eu disse um NÃO trêmulo e arriscado.

Jornalismo se enfureceu.

Nossa relação tinha realmente mudado ali.

Confesso: nós tivemos mais brigas e flashbacks, sim! Mas não nos conhecíamos mais. Eu já era outra.

Conheci um cara chamado Marketing. Ao contrário do Jornalismo, ele parece sacana mas é romântico. E outro chamado Empreendedorismo. Esse tem futuro! São convites constantes de ménage à trois.

Dediquei-me a ajudar outras pessoas que também caíram na lábia daquele cafajeste disfarçado de bom moço. Montei o REALIZE, um programa online onde mostro como podemos usá-lo e não só ser usado por ele.

Já somos 300. E agora se expandiu para receber qualquer pessoa com relacionamento abusivo com a profissão.

É preciso entender que canudo não nos define. É preciso coragem de dizer “não, caramba!”. É preciso ser promíscuo no mundo do conhecimento e entrar de vez no Tinder das habilidades.

Nosso divórcio finalmente saiu. Não era amor. Era cilada.


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